‘Pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada’

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Na Semco, os trabalhadores escolhem seus salários, horário e local de trabalho, além dos seus gerentes. A hierarquia rígida foi substituída por um regime em que todos podem opinar no planejamento da empresa.
Recentemente, Semler voltou a ganhar notoriedade no Brasil e no exterior por dois motivos. Primeiro, porque o desempenho extraordinário de algumas empresas criadas por jovens empreendedores (como Facebook e Google) aumentou o interesse por práticas gerenciais inovadoras.
Segundo, em função de um artigo polêmico publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, em que, ao comentar o caso de corrupção na Petrobras, Semler defendeu que “nunca se roubou tão pouco” no Brasil.
“Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80 e 90, até recentemente”, escreveu ele.
Semler é filiado ao PSDB, mas o artigo acabou sendo usado por quem defende o ponto de vista do governo e do PT no escândalo.
Ao comentar o episódio em entrevista à BBC Brasil, o empresário defendeu que a politização do debate sobre corrupção é contraproducente e que o escândalo da Petrobras e as repercussões do caso envolvendo a divulgação dos nomes de brasileiros com conta no HSBC da Suíça são sinais de que o país está mudando. “Pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada”, afirmou.
O empresário também defendeu um aumento do imposto sobre transmissão (herança) para os donos de grandes fortunas e disse que aceitaria pagar até 50%. “Isso não afetaria em nada a disposição do empresário em investir”, opinou. Confira abaixo a entrevista:
BBC Brasil: O seu artigo virou referência para quem defende o governo e o PT nos debates sobre o caso Petrobras. Isso o incomoda?
Semler: O objetivo (do artigo) não era esse, mas isso não impede que cada um se aproprie dele para fins próprios. Queria que as pessoas se perguntassem: O Brasil está ou é corrupto?
Essas questões que estão sendo jogadas contra o governo do dia são muito antigas. A Petrobras é só a ponta do iceberg. Há corrupção nas teles, nas montadoras, nas farmacêuticas, nos hospitais particulares. O problema é endêmico e não adianta fazer de conta que surgiu agora. Se você vai para a Paulista e grita contra a corrupção, também precisa responder: Está declarando todos os seus imóveis pelo valor cheio? Nunca deu R$ 50 para o guarda rodoviário? Nunca pediu meio recibo para um médico? E quem está colocando no Congresso esses políticos? Não sei se a Paulista não estaria vazia se todo mundo fizesse um autoexame.
O que ocorre com a corrupção é algo semelhante a nossa percepção sobre violência. Nunca se matou tão pouco no mundo – pense nas duas grandes guerras, na guerra civil espanhola, etc. Mas a internet, os debates, a difusão da informação faz com que tenhamos a sensação contrária.
BBC Brasil: Qual sua posição sobre os protestos?
Semler: Os protestos são legítimos e positivos. As pessoas estão se mobilizando por causas diversas. Daqui a pouco, por causa da situação econômica, também vão reclamar da inflação, do desemprego. Mas sobre esse tema, a corrupção, acho interessante entender se quem está na rua vai levar os princípios pelos quais está lutando para sua vida pessoal, a empresa onde trabalha.
BBC
Brasil: A politização da questão é um problema?
A sensação de que os ricos podem
fazer qualquer coisa está fraquejando. É um indício de que esse momento do
Brasil que durou 50, 60 anos está começando a terminar, mas serão necessários
20, 30 anos para fazer essa transição
Semler: A politização
é inevitável, mas não era necessária para essa discussão – porque o que está
acontecendo não tem nada a ver com partidos. Basta olhar para o escândalo do
HSBC. Ele revelou que quase 10 mil brasileiros têm conta no exterior – imagino
que a grande maioria não declarada. Isso não tem a ver com o PT – ou com o
PSDB. Há 30, 40, 50 anos as pessoas mandam dinheiro para a Suíça para pagar
menos imposto.
BBC
Brasil: Os casos Petrobras e HSBC indicam alguma mudança?
Semler: É bom ver
alguns executivos de algema. Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica
assustada. Até agora, você tinha uma classe média assustada, os pobres
assustados e os ricos em suas mansões e helicópteros, ou indo para a Europa.
Quando o cara é notificado pela polícia federal para explicar o dinheiro que
ele tinha na Suíça, é um horror para essa elite e é uma beleza para o país.
A sensação de que os ricos podem fazer qualquer coisa está fraquejando.
É um indício de que esse momento do Brasil que durou 50, 60 anos está começando
a terminar, mas serão necessários 20, 30 anos para fazer essa transição.
BBC
Brasil:É possível acabar com a corrupção?
Semler: Alguns países
nórdicos e europeus têm um grau de corrupção muito baixo hoje, apesar de terem
sido os grandes corruptores do mundo no século 15, 16 ou 17. Acho que a
educação, sem dúvida, faz parte desse processo. Nesses países, as escolas há
muito tempo também se dedicam a discutir questões éticas e padrões de
comportamento em comunidade. Se você só ensina a estrutura do átomo, a tabela
periódica e equações matemáticas o aluno pode passar no vestibular, mas não vai
ter parado um segundo para pensar em questões fundamentais da vida.
BBC
Brasil: Qual a extensão do problema de corrupção no setor privado?
Semler: Muitas vezes,
o principal interessado em acabar com o problema é o investidor, o dono do
negócio. É esse o caso, por exemplo, de um diretor de compras (de uma empresa),
que age com muita discrição (cobrando propina de fornecedores). Mas é difícil
detectar e acabar com isso. O processo de controle e a gestão clássica das
empresas é muito ineficaz.
BBC
Brasil:Por que um milionário ou bilionário arrisca colocar a reputação em risco
para não pagar imposto?
Semler: Acho que a
questão é antropológica-humanística. Por que uma pessoa que tem 20, 30, 40
bilhões de dólares quer ganhar mais cinco (bilhões)? Porque não fica em
Zurique, jogando tênis? Talvez porque pense que com mais um pouquinho vai ser
feliz.
BBC
Brasil: É possível ser um empresário honesto no Brasil?
Semler: Sim. Uma boa
parte dos empresários é honesta. Mesmo gente controversa. O Abílio (Diniz) não construiu
sua rede de supermercados dando propina para ninguém. Pode ser comum receber a
proposta: você me dá dez por cento e eu te ajudo. E aí tem gente que diz: ‘Ah,
o Brasil é assim mesmo’. Ou: ‘O que adianta eu pagar imposto se essa turma do
PT não vai usar o dinheiro direito’. Isso precisa acabar.
BBC
Brasil: Os empresários ricos e donos de grandes fortunas poderiam pagar mais
imposto no Brasil? Há gente que defende que isso poderia aliviar o peso do
aperto fiscal sobre o resto da população, por exemplo…
Semler: O imposto
sobre a operação já está no limite. Mas acho que particularmente os impostos de
transmissão (herança) são baixos. Quando o patrimônio de um grande empresário
passa para seus filhos, muitas vezes eles compram mais Ferraris, mais mansões,
etc. O uso social desse patrimônio é o mais estúpido possível. Há muito espaço
para aumentar (a taxa) e isso não afetaria em nada a disposição do empresário
em investir. Até porque muitas vezes esse patrimônio foi construído por pessoas
de outras gerações.
BBC
Brasil: O senhor aceitaria pagar mais imposto?
Semler: Tranquilamente.
BBC
Brasil: Quanto seria aceitável?
Semler: No caso do
imposto de transmissão, não acho chocante o Estado ficar com 50%. No de imposto
de renda, 40% (para a faixa mais alta de renda). Tinha um sócio na Suécia que
chegou a pagar 101% de sua renda em imposto.
BBC
Brasil: Como isso é possível?
Semler: É um
princípio difícil de a gente aceitar. Hoje, isso não existe mais. Agora, o
imposto (de renda) máximo lá é 85%, se não me engano. Mas a Suécia dizia o
seguinte: ‘Você já tem tanto que seu único papel é devolver um pouquinho’. A
questão é que a pessoa sai na rua e não há pobreza. O dinheiro é usado de forma
eficiente.
Pagar 50% (de imposto sobre herança) é aceitável para muita gente se é
feito bom uso desses recursos. Se você sai na rua e tem a sensação de que está
indo nessa direção (Suécia), mesmo que não chegue a ver o resultado em vida. É
uma opção melhor do que gastar (o dinheiro) em um helicóptero e depois ter de
sobrevoar favelas.
Mas também há muita gente (rica) que prefere fazer homenagem a si mesma.
Temos aquelas doações que são um exercício de vaidade… as pessoas doam dinheiro
para ter uma ala do hospital com seu nome: “Todo mundo que for esperar
para fazer uma mamografia vai ver o meu nome”. Ao fazer uma unidade de um
determinado hospital ou escola (privados) em Paraisópolis cria-se uma ilha da
fantasia.
São Paulo tem mais 180 favelas aonde ninguém vai. Acho que isso não
funciona, não adianta para a sociedade como um todo. A elite brasileira costuma
se vangloriar de fazer pequenas coisas, mas o Brasil tem problemas muito
maiores.
BBC
Brasil: O senhor também tem falado muito sobre o tema da desigualdade. Qual o
papel dos empresários e das empresas na redução do fosso entre ricos e pobres?
Semler: Tenho a
impressão de que o grande empresário, tal como o sistema está constituído hoje,
com essa liberdade, não vai contribuir em nada. Pense no global. Ele não tem
interesse em dizer: estou lucrando muito aqui, mas tem uma população que vai
mal em Gana, no Camboja… O cara dá de ombros. ‘Não tenho nada a ver com isso.
Pago meu imposto’, pensa.
A autopropulsão, ou o drive, do empresário
está associada a um egoísmo. No melhor dos casos, a um autocentrismo. Ele até
pode pensar ‘preciso fazer algum projeto ambiental’, mas não quer que se metam
com seu carro, sapatos caros, etc. Os grandes empresários tendem a ser egoístas
ou autocentrados. No Brasil ou em qualquer lugar do mundo.
Acho difícil esperar que tenham uma posição altruísta ou idealista em
relação ao resto da humanidade. Figuras como Steve Jobs ou Bill Gates, por
exemplo, não são muito diferentes dos grandes empresários americanos do fim do
século 19, que expandiram as redes de eletricidade e ferrovias do país. São
monopolistas, tentam quebrar os concorrentes, têm um ego enorme.
BBC
Brasil: O senhor ficou famoso por aplicar a chamada democracia corporativa em
sua empresa. Os trabalhadores escolhem seus horários e seus salários. Como isso
pode dar certo?
Semler: Se você dá às
pessoas todos os parâmetros para que elas decidam, elas decidem bem. É claro
que o único fator a ser considerado não é, por exemplo, quanto cada um quer
ganhar. Os trabalhadores se organizam para fazer o orçamento dos próximos 6
meses ou 1 ano, analisam o que precisam e que salário é preciso pagar para
isso. Cada um diz o que gostaria e o grupo vê se é possível. O autointeresse é
cotejado pelo coletivo. Em parte, o que fizemos foi mudar esse sistema do
“eu mando, você obedece” por um sistema em que eu pergunto: ‘Quando
você quer trabalhar? Quer vir até aqui ou não?’
BBC
Brasil: Há mais interesse por esse sistema hoje?
Semler: Certamente.
Fiz recentemente uma palestra TED (formato de conferências curtas, que se
popularizaram na internet) que conseguiu 1,2 milhões de 
views (acessos) em
pouco mais de um mês, principalmente de americanos. Conforme empresas abertas
por grupos de jovens conseguem em poucos anos se equiparar a empresas
tradicionais, muita gente está percebendo que a hierarquia militar que
prevalece em algumas companhias não serve mais.
Olhei esses dias uma lista da revista INC das cem
empresas mais promissoras (do globo) e só conhecia duas. Nunca tinha ouvido
falar das outras 98. O novo jeito de se organizar e de ser criativo, de inovar,
não passa mais pela GE (
General Electric) e pela GM (General
Motors
). Essas empresas que aparentemente tinham o poder e o controle sobre
tudo estão perdendo espaço.
Não faz mais sentido dizer que os funcionários de uma empresa devem
chegar às 8h e sair às 5h, que devem se vestir e falar como mandam seus
superiores. Esse sistema criado com a linha de montagem de Henry Ford, há cem
anos, está obsoleto.
BBC
Brasil: Qual o objetivo desse modelo de gestão alternativo? Obter mais lucro ou
ter funcionários mais satisfeitos?
Semler: Há 30 anos,
crescemos 41% ao ano, em média. E, ao mesmo tempo, tenho 2% de 
turnover (rotatividade
de empregados) e o índice de satisfação de nossos funcionários também é
bastante alto, embora não seja o que gostaríamos. Então, o que mostramos é,
justamente, que é um falso dilema dizer que ou a empresa lucra ou seus
funcionários ficam felizes.


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