Paulo Moreira Leite: “Lincoln” dá aula de política

Bom dia e bom trabalho nesta terça-feira!


Comentaristas deixam suas opiniões sobre a insegurança e assaltos a bancos no post

Em
2012, houve 50 assaltos a bancos, sem contar lotéricas e Correios.
Governo Jatene continuará sustentando que diminuiu a criminalidade?

De José Meira:

Deputado,
Parabéns,mais uma vez você mostra a verdadeira estatistica, e não aquela fabricada pelo Governo Tucano.
***

Para leitura de hoje, o artigo de Paulo Moreira Leite:

Paulo Moreira Leite
Desde janeiro de 2013, é diretor da
ISTOÉ em Brasília. Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA,
correspondente em Paris e em Washington. É autor do livro A mulher que
era o general da casa — Histórias da resistência civil à ditadura.

“Lincoln” dá aula de política

No Brasil, país onde a atividade
parlamentar tem sido sufocada por um debate de tom moralista, o filme
“Lincoln”, de Steven Spielberg, equivale a uma aula magna sobre o tema.


Debruçado na luta parlamentar do mais
importante presidente dos Estados Unidos para aprovar a emenda
constitucional que aboliu a escravidão, Spielberg não tem receio de
mostrar a política como ela é – com seus ideais e suas ambições,
compromissos sociais e visões diversas, mas também com seu jogo de
bastidores, a troca de favores e benefícios que permitiram um avanço que
mudou a história americana e abriu novas perspectivas de prosperidade
mundialmente.

O filme não idealiza um momento épico com frases de efeito e lições
pedantes. Pelo contrário. Ajuda a recordar que os homens travam seu
combate político a partir de condições dadas.

As condições reais da luta política nos EUA daquele período não tinham
nada de um convento de freiras carmelitas. Para quem acredita que a
política americana tem outra “cultura”, com um maior apego “à ética” e
aos “valores morais”, o filme serve como um banho de realidade.

O choque entre as verdades que o filme exibe e as crenças estabelecidas a
respeito da história dos EUA é tão grande que ajuda a explicar porque
Steven Spielberg perdeu o Oscar de Melhor Diretor. Sem exagerar na
sociologia de botequim, meu palpite é que “Lincoln” exibe verdades
inconvenientes demais para receber tamanha consagração.  

 “Lincoln” se passa num momento histórico preciso, quando a derrota
militar do Sul escravocrata está definida e é preciso negociar como o
país irá sair de uma Guerra Civil que já fez 60.000 mortos. Com um
roteiro bem estruturado, o filme mostra qual é o debate daquele momento.

De um lado, com imenso apoio popular, mas isolado junto à elite
americana e dentro de seu próprio governo, Lincoln está convencido de
que é preciso aproveitar aquela conjuntura favorável como uma
oportunidade única para abolir a escravidão. Em vez de reconstruir os
velhos acordos de sempre, que permitiriam a manutenção do cativeiro,
coloca a abolição como condição para a paz. Já seus adversários querem o
contrário. Garantir a paz em primeiro lugar para, em posição mais
confortável, negociar o destino dos escravos – com resultados
previsíveis.

Entre os dois lados do conflito, há um Congresso onde Lincoln tem uma
leve maioria, insuficiente para aprovar uma emenda constitucional. O
enredo do filme consiste na luta de um presidente politicamente
resoluto, socialmente progressista e quase um fanático religioso, que
avança a passos largos pelos escombros de um pacto social inviável, mas
protegido por homens de força, tradição e muito poder.

Spielberg faz justiça aos operadores políticos que se dedicam a buscar
os votos que faltam. Não esconde seu papel decisivo em vários momentos,
inclusive numa situação insólita, minutos antes da votação, quando uma
pequena manobra conservadora pode colocar tudo a perder.

Os operadores se mostram incansáveis no trabalho de convencer deputados
em fim de mandato, que não conseguiram reeleger-se no último pleito – e,
às  vésperas de tomar o rumo de casa, podem mudar de lado se ouvirem
bons argumentos, em alguns casos, ou receberem uma boa oferta material,
em outros, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Estas conversas e
negociações ocupam o centro dramático do filme – e terão um peso
decisivo no desfecho dos acontecimentos. Spielberg não foge da
discussão, não embeleza nem esconde os fatos. Mostra como eles se
passaram.

Baseado numa obra respeitada pela pesquisa histórica, o filme exibe o
presidente em reunião com seus operadores, discutindo técnicas de
abordagem dos indecisos. Quando um dos presentes comenta que alguns
votos vão sair mais caros, sugerindo que seria recomendável que se
fizesse oferta em dinheiro, o presidente reage em silêncio – o filme
deixa a cada um o direito de imaginar o que ele queria dizer com isso.

Numa das cenas finais, um veterano das campanhas abolicionistas chega a
definir a abolição, explicitamente, como uma das mais belas e mais
corruptas decisões do Congresso americano.

Num país atingido por esforços sucessivos de criminalização da atividade
política, Lincoln é um instrumento útil para se refletir como uma
mudança desse vulto foi operada num dos regimes de democracia mais ampla
daquele período. Antes e depois da abolição, a política norte-americana
conviveu com esquemas variados de corrupção.

A pergunta honesta e difícil que o filme evoca consiste em saber qual a
melhor opção: manter o regime do cativeiro ou jogar as regras do jogo
para fazer o país avançar?

Fica claro que, sem o pacote de empregos, benefícios e favores
distribuídos por seus operadores – e sem uma postura política
irredutível de eliminar o cativeiro – Lincoln teria entrado para a
História como um presidente de ótimas intenções e péssimos resultados.

A luta contra o cativeiro não se resumiu aos bastidores de Washington
nem à guerra de parlamentares republicanos e democráticos. Incluiu
revoltas, fugas em massa e outros atos de insubordinação conduzidos
pelos próprios escravos, que terminaram por colocar o fim do cativeiro
na ordem do dia, como se vê em  Django, que se passa na mesma época. Mas
a abolição precisava de uma emenda constitucional e esta mudança só
poderia ser feita pelos métodos usuais da política.

Eu acho importante que Spielberg não tenha querido embelezar a história, fingindo que ela aconteceu de forma mais edificante.

Ao exibir os fatos em sua verdade e feiura, o filme em nada diminui a
grandeza de uma mudança decisiva para o conjunto da humanidade.
Spielberg mostra que Lincoln estava determinado a aproveitar cada
brecha, cada oportunidade, para empurrar a roda da história. Esta é a
lição do filme.


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