“O PSDB se coloca contra as propostas que podem melhorar a vida dos trabalhadores”

Blog do Bordalo Humberto1

Prosseguindo a nossa dinâmica de entrevistas especiais (clique para ler a com Chico Cavalcante), tenho a honra de publicar hoje A PRIMEIRA PARTE de uma conversa com Humberto Cunha, que lutou contra a ditadura militar nas organizações clandestinas pró-democracia – no Partido Revolucionário Comunista, do qual faziam parte também Tarso Genro, José Genoíno e, em nosso estado, a própria governadora Ana Júlia e a professora Edilza Fontes.

Humberto foi fundador e primeiro vereador do Partido dos Trabalhadores em Belém, quadro fundamental para a formação de algumas gerações de petistas, intelectual brilhante que teve contribuição decisiva em várias das vitoriosas táticas, estratégias e formulações programáticas, sendo ainda sócio-fundador e presidente da SDDH-Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. Não à toa, é considerado uma lenda viva da esquerda paraense.

A SEGUNDA PARTE desse ping-pong entra no blog amanhã. Hoje, questões como a coerência do PT, alianças, diretrizes para segundo governo, balanços dessa experiência de três anos e apostas eleitorais. Nesta quarta, ditadura, projeto estratégico partidário, políticas de desenvolvimento estadual e nacional, Belo Monte e juventude.

Humberto Cunha é doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008), mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria (1996) e graduado em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia (1976).
Sua experiência educacional e de pesquisa vem ocorrendo na dimensão acadêmica e na educação popular, ampliando-se também à gestão pública, consultoria ambiental e assessoria a movimentos sociais e processos de planejamento participativo.
Nos últimos quatro anos colabora com o Governo Popular, liderado pela companheira Ana Júlia Carepa.

Deputado Bordalo – Você foi um dos fundadores do PT paraense. Na sua opinião, o governo Ana Júlia é coerente com as bandeiras históricas que o partido levantou no Pará? Em que iniciativas de governo elas se manifestam?

Humberto Cunha – Sim.

A luta histórica do PT paraense é contra as violações dos direitos humanos, o desmatamento, a agressão ambiental, o trabalho escravo, a grilagem de terra, os assassinatos de lideranças dos trabalhadores. A pauta positiva sempre foi a valorização da Amazônia, o direito do povo do Pará decidir seu próprio destino, a construção de ambientes participativos onde a democracia e o desenvolvimento possam florescer, o atendimento às carências da população através de políticas públicas eficazes.

Quando o Governo Popular instala o PTP, as câmaras setoriais, os conselhos e os fóruns, busca vínculos com os países da Pan-Amazônia, descentraliza a administração e implanta políticas de integração do território, implanta programas de cadastro ambiental e regularização fundiária aliados ao Zoneamento Ecológico-Econômico, está viabilizando o projeto histórico do partido.

Medidas de impacto imediato, mas de grande importância estratégica, como a eletrificação urbana e rural, a melhora significativa das políticas públicas, em especial Saúde e Educação, complementam as ações básicas do processo de revolução democrática pelo qual o Pará está passando.

DB – A partir desse balanço, quais são, na sua opinião, as diretrizes para avançarmos num segundo mandato?

HC – Precisamos influir mais no planejamento das cidades. Nossos planos diretores têm que avançar em qualidade, as bacias hidrográficas precisam ter planos de manejo, bem como as faixas de praia, os cordões de dunas, as áreas de proteção ambiental.
O desenvolvimento também não pode parar. Todo o marco regulatório implantado e a logística construída e planejada têm que ser usados para intensificar a verticalização da produção, seja das riquezas minerais, seja as florestais, agrícolas, pesqueiras…

Todo o marco regulatório implantado e a logística construída e planejada têm que ser usados para intensificar a verticalização da produção

Mas é especialmente no campo das políticas públicas que temos de avançar. Consolidar o que já foi conquistado, aprofundar os mecanismos das conquistas sociais e construir novas políticas para aquelas áreas que não foi possível atender no primeiro mandato. No plano ambiental ainda há muito que avançar, a exemplo da coleta seletiva de resíduos, sua correta destinação e reciclagem, logística reversa para embalagens de produtos industrializados, coleta e destinação adequada da água da chuva, expansão dos serviços de água tratada e esgotamento sanitário.

DB – Um dos grandes debates que se trava nessa fase pré-eleitoral é quanto às alianças. Quais os aliados que o PT deve ter para dar continuidade a esse projeto?

HC – Um dos princípios básicos da política é não se deixar isolar. O inimigo a gente escolhe, os aliados são aqueles que a história coloca em nosso caminho. Quando se tem um projeto popular, é necessário obter apoio parlamentar para executá-lo. Em tempo de eleições, é necessário obter o apoio partidário capaz de arregimentar os votos populares para formar maioria. Se fosse possível aliar-se a quase todos os partidos, deixando só um do outro lado, seria o ideal, mas deve-se também considerar que também é possível ganhar batalhas sem aliados, embora à custa de um esforço maior.

Um dos princípios básicos da política é não se deixar isolar. O inimigo a gente escolhe, os aliados são aqueles que a história coloca em nosso caminho.

DB – Alguns setores do partido ainda questionam a aliança com o deputado Jáder Barbalho. Como você vê essa aliança?

HC – A aliança se dá entre partidos. A liderança com a qual se firma a aliança é definida por esse partido, seus militantes, simpatizantes, eleitores. Não acho que cabe a qualquer de nós dizer quem deve dirigir o PMDB. Se a aliança PT-PMDB se tornar viável, é o PMDB que deve dizer quem é o seu interlocutor. Acho mais importante discutir quais são os parâmetros dessa aliança, de modo que a somatória de poder atribuída a um determinado partido não supere sua força política atual. Não se pode conceder apenas com base no poder passado de um determinado grupo ou figura política, como também não se deve transigir com a ética só para obter determinado apoio. O PT sabe concorrer só quando é preciso, embora a prudência política recomende buscar aliados, sempre que possível.

DB – Certas opiniões sustentam e tentam passar a imagem de que o PSDB é um partido de centro ou até centro-esquerda, qual é, na sua visão, o perfil ideológico dos tucanos? Dentro da estrutura e da história político-econômica das classes sociais parauaras, a quem o PSDB se vincula e representa?

HC – A social-democracia surgiu na Europa como movimento de esquerda, buscando melhorias sociais para os trabalhadores. Na Alemanha, a social-democracia chegou ao governo em meio a greves operárias. No Brasil, infelizmente, os partidos com o nome de social democrático, democrático social ou da social-democracia, têm caminhado em sentido contrário. Foi assim com o PSD, com o PDS e, agora, com o PSDB. O PSDB, tanto nacional quanto localmente, se ligou ao PFL, atual DEM, que aglutina os remanescentes da UDR e todo tipo de reacionários. Além disto, tornou-se o partido do desmonte do Estado. A desculpa ideológica é a convicção da excelência do Estado Mínimo, o apego à perspectiva neoliberal, que não deu certo em lugar nenhum do mundo e, no caso do Pará, privou o povo de políticas públicas.

O PSDB não pode ser considerado de centro-esquerda ou mesmo de centro. Ele se coloca contra as propostas que podem produzir melhora às condições de vida dos trabalhadores. É um partido reacionário. Seu emblema é o massacre de Eldorado dos Carajás.

DB – Dessa forma, qual o sentido histórico das eleições deste ano? É uma disputa de apenas de realizações?

HC – O povo trabalha, produz, paga impostos, quer ver resultado do seu esforço. Elege o governo e espera deste que faça obras e forneça os serviços de que necessita.
Embora o Governo Popular seja campeão de obras, não é isto que está em jogo agora. As eleições serão plebiscitárias, em que se irão confrontar dois projetos. Um deles, sob direção do PT, de sentido estratégico, de desenvolvimento socialmente justo e ambientalmente sustentável; o outro, liderado pelo PSDB, de mera reação à conjuntura, concedendo privilégios para o capital privado e arrocho sobre os trabalhadores.

As eleições serão plebiscitárias, em que se irão confrontar dois projetos. Um deles, sob direção do PT, de sentido estratégico, de desenvolvimento socialmente justo e ambientalmente sustentável

DB – Observando as pesquisas formais e informais e o movimento da sociedade paraense, qual suas apostas para as eleições de outubro?

HC – que tenho ouvido entre a população é o reconhecimento do trabalho da companheira Ana Júlia, afinal as obras e serviços promovidos pelo Governo Popular estão em todos os municípios do Pará. Portanto, vejo como muito grandes suas chances de reeleição, com ou sem coligação com o PMDB. Se houver coligação, a tarefa será facilitada. Se não, será necessário suar um pouco mais a camisa. O partido deve considerar como fator mais importante a militância. Só ela pode reconstruir a maré vermelha que no passado foi marca registrada da mobilização petista, com ou sem coligação. A coligação pode ampliar o fenômeno, não pode criá-lo.


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  1. sinto-me honrado ao ler a entrevista desse grande homem, bem resplandescente entre os que admiro nessa vida: probo,ardoroso e destemido.É verdade! Ele é lenda viva.Esse sim,faz qualquer paraense orgulhoso da terra de Angelim.Carrego comigo o galardão de ter participado do primeiro grupo no IPAR-CNBB-Norte II, que apoiou sua candidatura para vereador.Está bem lúcido e cristalino."Dá-lhe Humberto", assim dizia o jingle da campanha singelamente construído pelo grande Rui Barata.

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  2. Que entrevista sensacional deputado!
    Muito esclarecedora!
    VIVA O HUMBERTO!

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  3. Enfim, uma análise marxista sobre a conjuntura paraense. Excelente entrevista! Excelente oportunidade que dás aos teus leitores, deputado!

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Notícias sobre a atuação parlamentar do Deputado Estadual Carlos Bordalo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Pará.

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