Jornal americano The Washington Post publica reportagem sobre chacina em Belém e cita CPI das Milícias

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Blog do Bordalo 20150309 090816


Leia a reportagem traduzida pelo Blog

Depois do
assassinato de policial que virou criminoso, massacre por vingança deixa cidade
Brasileira dividida.
Por Dom Phillips 7 De Março, 7:30h
TERRA FIRME, BELÉM, Brasil —A esquina onde Eduardo Chaves, 16 anos, foi assassinado fica a apenas poucas
centenas de metros de uma Unidade Integrada Propaz nessa favela pobre mais movimentada. Mas apesar disto nenhum policial interveio
em 4 de novembro quando ele foi executado friamente
por um comboio de homens mascarados em motos e carros. Ele foi um dos dez
garotos e jovens mortos naquela
noite.
Raul, parente próximo, tentou salvar o garoto quando os assassinos o abordaram. “Eu fiquei corri para
ajuda-lo” disse Raul, que preferiu omitir seu verdadeiro nome. Ele foi ameaçado
com um tiro em cima da sua cabeça.
Uma pessoa passando tirou ele do caminho e
ele ouviu mas não viu os tiros
que deixaram Eduardo numa poça do próprio
sangue. Raul disse que ele foi
deixado com “desespero, lágrimas e tristeza”
Um inquérito que foi concluído
em 30 de janeiro pela Assembleia Legislativa do Estado do pará, cuja capital é
Belém afirmou que a policia permitiu um
massacre que foi anunciado
antecipadamente. As ramificações ainda estão reverberando na cidade Amazõnica
de 1,4 milhão de habitantes onde certas questões estão sem resposta sobre a
epidêmica violência Brasileira — 56.000 pessoas foram mortas em 2012 – e o papel dos mal pagos policiais atuam
nos dois lados da fronteira entre o crime e a lei.
O massacre foi deflagrado
duas horas antes pela morte de Antonio Figueiredo, Cabo do policiamento
ostensivo do Pará, que estava de uma
longa
licença médica, sendo
reformado
e enfrentando dois inquéritos por homicídio. Cabo Pet, ou Pety, como
Figueiredo era conhecido, comandava um
grupo criminoso e vicioso, da favela do Guamá que fica no lado, e que incluía
policiais militares
.
Sua morte incendiou seus parceiros policiais que usaram as redes sociais.
“Amigos nosso irmãozinho PETY, o Cabo Figueiredo Figueiredo, acabou de ser
assassinado no Guamá. Eu estou indo, Eu espero contar com o máximo de amigos,
vamos dar a Resposta”, Sgt.
Rossicley Silva, antigo colega de Figueiredo em grupo tático da policia e
presidente da Associação dos Praças da Policia Militar do Pará, escreveu no
Facebook. Silva falou ao The Washington Post que seu post foi mal interpretado
e preferiu não fazer mais comentários sobre o assunto.
Enquanto 0s alarmes do massacre reverberaram
na Terra Firme no serviço de celular
WhatsApp, Eduardo e sua namorada foi
buscar sua filhinha em seu
apartamento. Ela foi poupada. Ele não.
“Esta ação de milícia no bairro da
Terra Firme aconteceu com a total complacência, proteção e garantia da policia militar da área”, disse o Deputado Estadual Carlos
Bordalo, que conduziu a Comissão Parlamentar de Inquérito. “Viaturas da polícia
providenciaram suporte logístico. Os carros da polícia pararam os feridos
impedindo que recebessem ajuda de fora.”
Baseado em investigações previas e relatos anônimos de testemunhas e policiais, o relatório concluiu que pelo
menos 5 milícias operam no Pará, e são responsáveis por massacres desde 1994
onde policiais estão envolvidos e em alguns casos estão presos.
Parece uma romance tropical
de James Ellroy. Milícias oferecem segurança privada ao comércio local,
incluindo assassinatos por encomenda e
execuções
de criminosos conhecidos, e
na
Guamá elas também queriam
controlar
o trafico de drogas.
A policia está conduzindo suas próprias investigações. Gen. Jeannot
Jansen, Secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, disse que
Figueiredo foi um bom policial que se tornou mau. “Ele tinha uma folha de serviço excelente até um determinado momento, depois ele se
envolveu com pessoas que eram provavelmente parte da criminalidade” disse Jansen.
Jansen disse que não pode confirmar a existência de milícias.
“Indícios existem. É por isso que existe a investigação” disse. “Existem
certas indicios que nos permitem supor a participação de policiais? Sim, existem.”
E se for possível provar, ele diz, “serão punidos.”
Alguns, em Belém, consideravam Figueiredo uma espécie de homem da lei do
Velho Oeste que fazia serviços desprezíveis para que a sociedade pudesse ficar
segura. Numa manhã recente, dois homens
descamisados sentavam na rua onde Figueredo morava, perto da esquina do ponto
de moto táxi onde Figueiredo foi morto
.
“Eu gostava muito dele”, disse
um deles, falando na condição de ficar anônimo. Ele apontou para a câmera de
segurança colocada alto no poste de luz. Ele colocou essa
câmera ali” disse. “Havia menos crime. Eles o respeitavam. Os bandidos não faziam nada.”
Outros celebraram sua morte
soltando fogos de artificio. “Esse Pet
era conhecido como uma pessoa extremamente violenta”, disse uma parenta de Bruno Gemaque, outra vítima do massacre, de
20 anos, falando também na condição de ficar anônimo. “Se ele botava na cabeça
que alguém era bandido ele iria atirar e matar.”
Gemaque foi morto em frente a sua namorada. Ele estava dando carona de
bicicleta a ela quando o esquadrão da morte os prendeu. “Eu não consegui chorar
de tanta angústia”, disse a parenta.
“Bruno era uma pessoa muita feliz.”
A frase “bandido bom é bandido morto” é frequentemente usada no Brasil
para justificar mortes cometidas por policiais. Ainda segundo um relatório
policial confidencial visto pelo The Post, apenas uma das vítimas estava
envolvida em atividades criminosas. Parentes de 4 das vítimas afirmam que elas
eram inocentes.
“Ele não tinha inimigos”, disse
uma parenta de Márcio Rodrigues, 22, que foi atirado pelas costas quando a matança se aproximava de seu fim. Outro
parente próxima da vitima Allersonvaldo
Carvalho Mendes, 37, disse que ele tinha dificuldades de aprendizado e
consequentemente não dava ouvidos aos alertas de ficar fora das ruas.
Luiz Passinho, soldado da policia militar, disse que muitos policiais fora de serviço fazem segurança privada
tal como a milícia de Figueiredo oferecia.
“É ilegal, mas tolerado por que inibe as demandas salarias”, ele diz.
Infeliz com o baixo salário e as
condições ruins de trabalho
, Passinho juntou-se numa greve de 2014 e é um de 41 praças enfrentando
processos correcionais internos
. “O
que alimenta a milícia é esta insatisfação”, ele disse. “Eles buscam aquele policial
que precise de renda… que esta se sentindo inseguro, aquele policial está
revoltado pela morte de um camarada.”
Ao contrário do Rio de Janeiro, onde em 2008 a Assembleia Legislativa do
Rio debruçou-se sobre este problema, o termo “milícia” era pouco comum no Pará antes de novembro, disse Eliana
Fonseca, Ouvidora do Sistema de Segurança Pública. Os assassinatos aterrorizaram
a sociedade. Por dias depois da chacina muitos permaneceram em suas casas enquanto
a cidade ficava paralisada com “uma reação
de medo, de insegurança” ela disse, “como se estivéssemos numa sociedade onde tudo
se pode.”

Fonseca disse que milícias como a de Figueiredo continuam operando e
matando mas com menos intensidade — e mais notoriedade. Agora todo mundo sabe o
que milícia significa.

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