De Dom Pedro II a Lula, a oligarquia nunca perdoa. Por Filipe Galvon

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O texto abaixo foi escrito por Filipe Galvon, documentarista
e escritor brasileiro radicado na França. Seus trabalhos, todos gratuitos
e disponíveis online, estão disponíveis
em http://vimeo.com/filipegalvon. Seu livro de poesia,  Seu livro de poesia Animau, está disponível no
site da editora 7Letras.


Em 1889, o Imperador Pedro II, monarca popular, foi deposto
numa operação secreta feita para evitar a resistência do povo. Os militares
ligados ao golpe republicano entraram na residência oficial durante a madrugada
e escoltaram à força o velho imperador e sua família diretamente até o porto,
onde um navio já os esperava para levá-los ao exílio, expulsos do Brasil para
sempre. A monarquia deu lugar ao regime militar ditatorial conhecido como
República da Espada, e em seguida ao período conhecido como República do
Café-com-Leite, em que oligarquias se revezavam no poder sem voto democrático.
Um ano antes da sua deposição, o Imperador Pedro II havia sancionado a Lei
Áurea, que abolia a escravidão do Brasil, contando com forte resistência das
oligarquias brasileiras no Congresso, contrárias à abolição.

Em 1954, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se com uma
bala no peito após resistir a pressões pela sua renúncia. Pesavam sobre o
presidente denúncias de corrupção que, embora jamais provadas na Justiça, eram
veiculadas diariamente na grande mídia da época, notadamente pela voz do
jornalista Carlos Lacerda. Um ano antes de sua morte, Getúlio havia fundado a
Petrobras, empresa que instituía o controle nacional sob a exploração do
petróleo e constituía passo estratégico para a soberania do país. No dia da
morte de Getúlio, uma multidão tomou as ruas da capital, evitando um golpe
militar que se organizava nos quartéis.

Em 1964, o presidente João Goulart foi deposto por uma junta
militar com apoio de segmentos da classe média e de grandes veículos de
comunicação, notadamente do jornal O Globo. Dias antes de sua deposição, no
episódio conhecido como Comício da Central, Jango havia feito discurso em que
anunciava medidas de cunho popular, como a reforma agrária e a reforma urbana.
Em 1965, foi inaugurada a Rede Globo de Televisão, organização que cresceu
durante todo o período do regime militar até alcançar mais de 95% do território
nacional.

Em 2016, Luís Inácio Lula da Silva, presidente mais popular
da história do Brasil, é detido e levado à força para interrogatório, numa
operação realizada às 6 horas da manhã, com efetivo de 200 policiais. Segundo a
Polícia Federal, o objetivo da ação, chamada condução coercitiva, foi o de
evitar confrontos e agitações populares. Contra o ex-presidente, pesam
acusações de corrupção que, embora jamais provadas na Justiça, são veiculadas
diariamente pelos veículos de comunicação – notadamente os que pertencem ao
grupo Globo. Lula foi o primeiro cidadão brasileiro oriundo de uma região pobre
do país e da classe baixa a alcançar o posto de Presidente da República. Em seu
governo, Lula conduziu, segundo números da Unesco, mais de 40 milhões de
pessoas para fora da linha de pobreza e terminou seu mandato com 80% de
popularidade. A Rede Globo transmitiu a operação de sua condução coercitiva ao
vivo.

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