Crise de Identidade da Oposição

Blog do Bordalo Fernando
Por Fernando Nogueira da Costa*

O instigante ensaio “Raízes sociais e ideológicas do Lulismo”, publicado em novembro de 2009 na revista “Novos Estudos” do CEBRAP, de autoria do professor de Ciência Política da USP, André Singer, tem sido aclamado por diversos colunistas “tucanos”. Luiz Carlos Bresser Pereira, na Folha de S. Paulo, afirma que “há muito tempo eu não via um artigo tão claro, tão objetivo e tão esclarecedor da política brasileira. Um artigo que nos obriga a pensar”.
Concordando com o elogio, é interessante analisar essa reação eufórica dos oposicionistas. Ocorre simultaneamente com a abertura da temporada eleitoral em que a grande imprensa publica uma série de entrevistas para que, sob a capa de “argumentos imparciais de autoridades”, se insista na defesa da hipótese de continuidade entre governos FHC e Lula.
Inesperada foi a adoção da hipótese pelo próprio ex-porta-voz do Governo Lula, André Singer: “A “continuidade do governo Lula com o governo FHC” na política macroeconômica — ‘baseada em três pilares: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário nas contas públicas’ — foi uma decisão política e ideológica. (…) Nossa hipótese é de que o governo se afastou de aspectos do programa de esquerda adotado pelo PT até o final de 2001 (…) com a finalidade de impedir que uma reação do capital, voltada para criar dificuldades à mudança, provocasse instabilidade econômica e atingisse os excluídos das relações econômicas formais”.

Esse equívoco repetido sem cessar, da direita à esquerda, da imprensa à academia, pode aparentar ser verdade não por razão lógica, mas por ser simplesmente “lugar comum”. Tecnicamente, a caracterização de qualquer política econômica exige a análise da combinação entre quatro instrumentos utilizados (políticas monetária, fiscal, cambial e de controle de capital) e – importante – em que grau. Basta alterar-se a intensidade no uso de alguns deles e/ou incluir-se novo instrumento para produzirem-se novos resultados macroeconômicos. Isto ocorre porque se trata de decisão crucial, que altera o contexto de maneira irreversível.

Qualquer (bom) manual de macroeconomia aberta diz que a política fiscal ativa (frouxa) é ineficaz para retomar o crescimento com câmbio flexível e forte mobilidade de capital, condições atualmente necessárias para obter relacionamento proveitoso com o resto do mundo. Sugere também que a opção, nessas condições, deve ser por política fiscal mais rígida e política de crédito expansiva. Este instrumento-chave de política econômica – política de crédito – nunca foi utilizado nos dois mandatos de FHC. A preocupação maior era controlar a demanda agregada e sanear os bancos públicos, preparando-os para futura privatização.

O debate é paradoxal sob o ponto de vista da lógica. A oposição, com sua arrogância de achar que ninguém pode ser mais competente do que ela, afirma: “A política econômica atual é cópia da anterior”. A situação retruca: “Mas por que então a atual produz resultados macroeconômicos tão superiores aos produzidos anteriormente?” O contra-argumento, geralmente, é: “O contexto internacional tornou-se favorável”. Logicamente, a sentença final seria: “Bom, então, naquele contexto, a julgar pelos resultados então apresentados, a política econômica estava equivocada e seria irracional dar-lhe continuidade!”

Quanto à suposta “continuidade da política social”, basta lembrar que a tendência de crescimento em longo prazo de vários indicadores sociais é apontada desde o início da série temporal da PNAD em 1992, isto é, transpassa também os governos Collor e Itamar. O que principalmente diferencia o governo Lula, além de centralização eficaz das políticas, são os aspectos de escala e focalização em locais mais necessitados. Em outras palavras, os locais mais ricos e de mais fácil acesso eram os antes aquinhoados…

Enfim, a hipótese de continuidade revela sim a crise de identidade da oposição. Ela, racionalmente, deve se indagar: “Se há continuidade, por que eu faço oposição?”

*É professor Livre-docente Associado do IE-UNICAMP, foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal no primeiro mandato do Governo Lula.


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  1. Perfeito. Sem tirar nem por.

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  2. É uma balela essa história de continuidade, basta olhar os números do emprego. Manda esses tucanos pastarem =!

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