Comunidade científica faz alerta sobre superbactérias nos lagos que abastecem Belém

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Reproduzimos abaixo a reportagem publicada na última edição do jornal científico Beira do Rio, da Universidade Federal do Pará. Uma pesquisa séria e que deve servir de alerta. O crescimento desordenado, aliada a ocupação irregular do solo, sem a interferência eficaz do gestor público preocupa a comunidade científica. A reportagem denuncia que as chances de se desenvolver doenças são muito grandes. É um problema sério de saúde pública.

Lago Água Preta tem superbactérias
Por Rafael Rocha – Beira do Rio
A ausência de medidas conservacionistas e o uso indevido dos
recursos hídricos trazem consequências negativas para a população, como a
contaminação das águas dos mananciais que abastecem as cidades. Na capital
Belém, o lago Água Preta é um dos principais fornecedores de água superficial
para o abastecimento público da Região Metropolitana. Localizado em uma área de
ocupação urbana, desordenada e susceptível ao despejo de efluentes domésticos e
industriais, processos degradantes nesse manancial podem colocar em risco a
vida da população.

O Laboratório de Genômica, da Universidade Federal do Pará
(UFPA), juntamente com o Programa Pesquisador Visitante Especial (PVE),da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), estão
realizando pesquisa sobre bactérias resistentes a antibióticos no lago Água
Preta. Em ambientes naturais, como o aquático, a disseminação de bactérias
resistentes a antibióticos, bem como seus genes de resistência constituem uma
grande preocupação por estarem associados a doenças infecciosas.

O potencial de genes de resistência incide essencialmente em
resistências comuns aos antibióticos de uso frequente. Dessa forma, a
utilização de antibióticos de último recurso, como carbapenêmicos, tem sido
restringida para prevenir a disseminação de bactérias resistentes a esses
medicamentos. Em vários países, os carbapenêmicos estão restritos aos ambientes
hospitalares.

Assim, coloca-se a hipótese de que a dispersão da
resistência a esses antibióticos em ambientes naturais está certamente no
início, o que constitui uma oportunidade para estudar e compreender o processo
de disseminação e de evolução deste fato. A resistência a carbapenêmicos é
geralmente mediada por carbapenemases, consideradas a maior ameaça em termos de
resistência a antibióticos. A caracterização dos genes que codificam para
carbapenemases em ambientes naturais contribuirá para antecipar cenários de
disseminação de resistência e prever riscos inerentes.

Bactérias são resistentes a Cefotaxima e Imipenem

A Pesquisa Ambientes naturais como reservatórios de
resistência a antibióticos de último recurso tem como objetivo caracterizar o
reservatório de genes que codificam para carbapenemases num sistema aquático
(no caso, o lago Água Preta, que faz parte do Complexo Hídrico do Utinga);
integrar dados de abundância, diversidade de genes e dados ambientais para
elucidar vias de disseminação e de evolução desses genes e avaliar o potencial
da resistência a carbapenêmicos como indicador de disseminação de resistência e
de risco para a saúde humana.

O trabalho está sendo desenvolvido no Laboratório de
Polimorfismo de DNA, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFPA), e no
recém-inaugurado Laboratório de Genômica da UFPA. Além da professora visitante
Isabel da Silva Henriques, da Universidade de Aveiro, a equipe dos
pesquisadores é formada pela professora Adriana Ribeiro Carneiro, da Faculdade
de Biotecnologia; por Artur Luiz da Costa da Silva, coordenador do Laboratório
de Genômica; e pelos alunos de pós-graduação Rafael Azevedo Baraúna, Jorianne
Thyeska Castro Alves e Larissa Maranhão Dias.
A coleta das amostras de água foi realizada em agosto
passado, em seis diferentes pontos do lago Água Preta. As amostras foram
tratadas com os carbapenêmicos Cefotaxima e Imipenem, que identificaram, por
meio de antibiograma, linhagens de bactérias resistentes a esses antibióticos.
A segunda parte da pesquisa é o reconhecimento das espécies dos microrganismos,
etapa que será realizada, posteriormente, pelo procedimento de identificação
molecular.

Segundo Isabel Henriques, a falta de saneamento e o despejo
de esgotos nesses reservatórios contribuem para a resistência das bactérias.
“Apesar de a resistência a antibióticos ser uma característica natural em
algumas bactérias, a sua disseminação para outros grupos bacterianos tem sido
promovida pela ação do homem. Cria-se um ciclo em que esgotos são lançados nas
águas e isso acaba conferindo resistência a essas bactérias, de sobreviver na
presença de antibióticos”, explica a professora.

Resultados irão apoiar gestão de ecossistemas

A pesquisadora ainda enfatiza que sistemas aquáticos, como o
lago Água Preta, apresentam fácil disseminação das bactérias resistentes e são
fonte de contaminação para humanos, uma vez que as pessoas têm contato contínuo
com essas águas contaminadas, que, mesmo após tratamento, ainda podem conter
bactérias resistentes.

Os resultados preliminares da pesquisa já apontam a presença
de bactérias com resistência aos carbapenêmicos no lago estudado, indicando a
disseminação desses microrganismos nos mananciais que abastecem a Região
Metropolitana de Belém. Sobre ambientes contaminados, Isabel Henriques destaca
que, “infelizmente, nos tempos mais recentes, esta resistência saiu dos
hospitais. Neste momento, temos ambientes como solo e água contaminados com
bactérias resistentes a antibióticos que conseguem transferir esta resistência
para outras bactérias”.

Para Artur Silva, coordenador do Laboratório de Genômica,
esta parceria entre a Universidade de Aveiro e a UFPA é importante para contribuir
para os estudos sobre a biodiversidade local. “Uma das deficiências que eu vi é
o fato de não trabalharmos com a biodiversidade local. Pela primeira vez,
estamos trabalhando com isso,  aliando uma tecnologia de interesse a um
problema local”, observou o coordenador.

A análise do resultado final da pesquisa permitirá responder
a questões centrais relacionadas com ocorrência, incidência, diversidade e
dispersão da resistência em ambientes naturais, permitindo tirar conclusões
acerca dos fatores que podem determinar a disseminação de resistência a
antibióticos. Contribuirá, ainda, para elucidar a origem e evolução dos genes
de resistência e antecipar os riscos para a saúde humana e para o equilíbrio
dos ecossistemas. O conhecimento obtido na pesquisa fornecerá bases sólidas
para a tomada de decisões por parte das autoridades, no que diz respeito não só
à gestão dos ecossistemas aquáticos mas também a políticas de prescrição de
antibióticos.

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