CMS debate estratégias das esquerdas

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Quais as ações e estratégias a seguir daqui para a frente para
avançar no projeto popular e democrático de país, diante da nova
conjuntura política-social? Essa foi a grande questão colocada no
primeiro debate da 11ª Plenária Nacional da Coordenação dos Movimentos
Sociais, na manhã desta sexta-feira (19), no auditório do Sindicato dos
Jornalistas de São Paulo (SJSP), que abordou a conjuntura nacional.

É fato. Há um novo cenário político que foi
descortinado com os protestos que ocorrem no país desde junho, quando a
população levou para as ruas demandas represadas. Durante os oito anos
de governo Lula e os dois primeiros de Dilma Rousseff existem avanços e
conquistas alcançadas, reconhecidas até mesmo pela oposição, e que
precisam ser ditas. No entanto, não houve mudanças estruturais como
reformas política, fiscal, agrária, urbana e no sistema de comunicação. A
afirmação foi feita por todos os integrantes e participantes da mesa de
debate.

“Houve um fator detonador, que foi a mobilidade urbana;
um fator que espraiou o movimento, que foi a solidariedade depois da
violência contra os manifestantes; e houve o papel manipulador da mídia.
Mas, na minha avaliação, esses protestos mostraram um certo esgotamento
do modelo lulista. Não pelo que ele tem de positivo, mas pelo que ele
tem de limitação. Nós temos gargalos muito sérios e que não resolvemos. É
um governo antineoliberal, mas não conseguiu acabar com os pilares do
neoliberalismo”, alertou Altamiro Borges, presidente do Centro de
Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Para ele, o
governo Dilma Rousseff foi ainda mais progressista que o governo Lula no
enfrentamento ao rentismo, com redução de juros e, por isso, passaram a
alarmar nos jornais de que ‘estão desmontando o tripé’. “Havia
avançado, mas, diante da crise econômica mundial e da pressão, rentista e
midiática, acabou dando passos para trás, essa reversão de expectativa
do banco central da taxa Selic é muito negativa. A ideia de mais cortes
nos gastos públicos é muito negativa. Na Europa em plena crise não se
corta nada, ao contrario, se injeta mais dinheiro na economia. Ou seja, o
tripé neoliberal não está superado. Não está superada a questão do
superávit primário, da política cambial, da política monetária. Nós
tivemos mudanças, comemoramos avanços nesses 10 anos, mas vamos ser
sinceros: mexeu em questões estruturais no Brasil?”, indagou Altamiro
Borges.

João Paulo Rodrigues, dirigente nacional do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), concorda com Miro: “Na nossa
avaliação, humilde do campo, é que o ciclo chegou ao final, do ponto de
vista da estratégia política para avançar ao socialismo”. Para ele, a
questão central é de que “os governos passam. O quê vamos acumular do
ponto de vista histórico para o conjunto da classe trabalhadora? Se não
tiver claro que temos um projeto de país, teremos problemas graves.”

Ademir
Figueiredo, coordenador de Estudos e Desenvolvimento do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese)
Nacional, que também integrou a mesa, lembrou do que disse o
ex-presidente Lula, na quinta-feira (18), durante a Conferência Nacional
Uma Nova Política Externa, na Universidade Federal do ABC, e tentou
traduzir suas palavras. “Ontem [quinta] o ex-presidente Lula falou pela
primeira vez do movimento publicamente. E em outras palavras ele disse
para não deixar de falar bem da política. Tendo em vista que parte desse
movimento tentou dizer que era apolítico, no sentido de ser algo
genuíno e puro, por mais legítimo que seja o conjunto de bandeiras,
qualquer bandeira é política. Você pode não gostar do político, mas a
política não pode ser negada. Faça de outro jeito. Foi isso que entendi
da mensagem dele”, explicou.

Projetos em disputa

João
Paulo, do MST, lembrou que atualmente quatro grandes projetos estão em
disputa no país: neoliberalismo; neodesenvolvimentismo (que inclui desde
as bases do MST até bases da Fiesp); democrático e popular, que é o
defendido pelos movimentos sociais e partidos progressistas da CMS; e
socialista. “Faço essa divisão para que a gente perceba os desafios: é
dialogar com a militância séria que defende o socialismo, para que não
descambe para o radicalismo perigoso; e dialogar com quem está dentro do
governo com o neodesenvolvimentismo, para trazer o governo e o conjunto
das políticas públicas para o campo histórico que construímos na década
de 1980, de luta e enfrentamento.”

Ainda de acordo com a
avaliação do MST, é preciso enfrentar o déficit organizativo dos
movimentos e a deficiência na formação de quadros políticos e não
somente na formação de vereadores ou prefeitos, mas sim formar
lideranças nas bases. “Como é que a militância vai assimilar, por
exemplo, o que essa juventude que está na rua quer. E não é só fazer
curso, é política de fazer quadros numa perspectiva de hegemonia como
dizia Antonio Gramsci. E se forem 20 milhões para a rua? Quem vai
dirigir esse processo de forma organizativa?”, exemplificou.


com relação a avaliação dos protestos recentes, Altamiro Borges e João
Paulo discordam. Para o MST a atual conjuntura é favorável para os
movimentos sociais alavancarem. “Como diz a moda sertaneja tem seus
aspectos ruins, mas, no geral, tá boa”, comparou o sem-terra.


Altamiro demonstrou preocupação e cautela. Mesmo tendo uma visão
positiva do Dia Nacional de Luta (11 de Julho), que alterou a disputa
simbólica, com trabalhadores e movimentos sociais unificados. “Esse é o
ponto alto do processo. O melhor termômetro para medir luta de classe é
ler editoriais dos jornalões, que afirmaram que o 11 de julho foi um
fracasso, o que demonstra que mexeu com a estrutura”, observou. Mas,
para o militante comunista do Barão de Itararé os movimentos sociais
precisarão jogar duro: “Tudo vai depender da pressão dos movimentos
sociais. O jogo mudou, não quero ser tido como um pessimista , mas o
cenário está mais difícil para a implementação de um projeto popular e
democrático de Brasil”.

Citando o sociólogo português Boaventura
de Sousa Santos, que classificou o sistema econômico atual capitalista
de fascismo societário. “É o sistema em que o governante é e eleito, mas
é enquadrado pelo poder econômico e midiático. Então se não fizer uma
disputa permanente, vamos perder espaço. Não pode ter uma postura
voluntarista esquerdista radical, mas também não pode ter postura de
passividade bovina, como disse já João Felício.”

Além dos
movimentos sociais, Altamiro também ressaltou a importância do papel do
governo Dilma neste momento. “O governo Dilma teve uma boa postura
diante dos protestos anunciando os cinco pactos, tirando o da
austeridade fiscal, que é incoerente. Está consultando os movimentos.
Agora, não basta ouvir. O governo lula, na crise de 2005 e 2006, deu uma
marca mais à esquerda em seu governo. Espero que o governo Dilma reaja
da mesma forma e sinalize isso”.

Democracia participativa

Em
uma análise mais de fundo, Altamiro Borges lembrou qual foi o recado
das ruas: mais participação, mais democracia. “Um cara mais otimista
diria que as ruas pediram socialismo. Sabe porquê? Por que as ruas
pediram mais democracia, mais participação, mais educação, mais saúde,
mais transporte, mobilidade urbana. Ou seja, mais presença de Estado”,
relatou.

O representante do Dieese falou da necessidade de
entender melhor o movimento das ruas, que também precisa ser mais claro.
Se por um lado é despolitizado, no sentido de não valorizar a
organização política enquanto instrumento, por outro lado é preciso dar
um desconto na tentativa de instrumentalizá-lo, por parte da direita.
“Há uma tendência de vê-lo e aplicar o lacerdismo [Lacerda ex-governador
do Rio de Janeiro (UDN) que tinha como característica fazer o jogo do
denuncismo da corrupção]. No entanto, é um grupo de jovens muito
genuíno, do ponto de vista de sua atuação, nascidos depois do período de
democratização”, observou.

Ademir Figueiredo, em um exercício
antropológico, explicitou a maneira como os jovens veem a política no
país: “Eles viram todas as mudanças dos anos 1990 e 2000 e aprenderam
que a característica desse país é se sustentar a partir de acordos
políticos para manter um governo, que não se sustenta moralmente. Não é
um problema de um ou outro partido, mas sim de uma máquina política que
está viciada, estruturada há anos com base num ‘toma lá da cá’”. O
economista do Dieese frisou que ‘é preciso identificar qual é a reforma
política que o movimento que está nas ruas quer’, lembrando que um
debate muito forte é o financiamento público das campanhas, que é
vedado, mas que é fundamental para dar ‘clareza e transparência para a
política’.

O dirigente rural do MST reforçou que é preciso traçar
novos objetivos e novas formas de luta, lembrando que no pós-ditadura
militar a esquerda havia pensado quatro ‘grandes tarefas’ para se
alcançar uma política mais progressista: criar um movimento social de
massa com capacidade de mobilização, criar partidos políticos fortes,
fazer as reformas de base e, como parte desse avanço, acumular força
para chegar numa outra perspectiva. No entanto, João Paulo avalia que
somente duas dessas tarefas foram cumpridas. “Chegamos ao cargo mais
alto das instâncias institucional, que é a Presidência da Republica.
Porém, não demos conta de fazer as reformas e não conseguimos construir
uma estrutura organizativa na sociedade além dos partidos para construir
uma nova correlação de forças para enfrentar a classe dominante. Se é
verdade isso, a estratégia para o próximo período precisa ser refeita.
Nós precisamos coletivamente pensar uma nova perspectiva política que
possa dar conta dos desafios do Brasil e da América Latina”, salientou o
integrante do MST.

Plebiscito ‘popular’

Entre as
resoluções do MST, após avaliação da conjuntura, e que foram levadas
para a Plenária da CMS, é a retomada da luta pelas reformas como tática e
estratégia, como a reforma agrária e a democratização da comunicação,
também tido pelos agricultores como tema central. “A pergunta é: temos
disponibilidade para fazer esse enfrentamento?“, desafiou João Paulo,
que acrescentou ainda a reflexão do papel dos movimentos sociais para
esse próximo período e a apropriação da reforma política como grande
bandeira de luta.

Uma das propostas do MST é de tentar de todas
as formas fazer com que o plebiscito ou a convocação de uma nova
constituinte exclusiva para tal seja concretizada. Mas, caso não ocorra
na instância governamental, é puxar um plebiscito popular como foi feito
na época do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, que tentou
implementar a Alca. “Se não for possível via Congresso Nacional,
fazemos de forma popular. Isso mobilizará o militante e toda a sociedade
para o debate e assim contribuímos com a politização”.

Plenária

Depois
das falas dos integrantes da mesa, os movimentos sociais presentes como
Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), Central de
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Central Única dos
Trabalhadores, União Nacional dos Estudantes (UNE), União de Negros Pela
Igualdade (Unegro), União Brasileira de Mulheres (UBM), entre outros,
se altarnaram nas falas para apontar dúvidas e questionamentos.

De
acordo com Rosane Bertotti, secretária de Comunicação da CUT, que
mediou a mesa, no sábado (20) – segundo e último dia da plenária – será
resgatado o histórico de luta da CMS e, depois de ouvir representantes
de organizações presentes, a plenária deverá apontar quais as novas
estratégias de luta.

“O nosso objetivo é avaliar os 10 anos da
Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e debater as nossas ações nesse
período, com avaliação da conjuntura atual e traçar novas ações e
estratégias. A ideia é refletir onde estamos e para onde vamos”,
declarou Rosane.

Fonte: Deborah Moreira, no sítio Vermelho: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/07/cms-debate-estrategias-das-esquerdas.html#more


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