Carta Capital: O Brasil sem Chico é mais sem graça

Na Carta Capital desta semana:

Por Aurélio Munhoz*

As longas reportagens laudatórias veiculadas na imprensa sobre Chico
Anysio não fizeram jus à sua biografia. Pelo menos não do jeito que
deveriam ter feito. A costumeira pressa – e sobretudo a ausência de
coragem de contrariar os interesses dos barões da mídia – impediram a
quase totalidade dos veículos jornalísticos de explicar ao Brasil as
verdadeiras razões pelas quais o homem foi um dos maiores humoristas
brasileiros.

Chico foi um dos ícones do gênero porque foi o principal responsável
pela criação e desenvolvimento de um modelo de humor feito com genuína
inteligência, sensibilidade e criatividade. Humor de personagens (mais
de 200, no seu caso) identificados com a sociedade brasileira, feito por
um profissional do riso verdadeiramente talentoso. Humor de um artista
de verdade, forjado na lida do rádio e do teatro, que não raro escrevia
seus próprios textos e se preocupava em transmitir conceitos e valores
com sua arte. Humor não é só riso e dinheiro, enfim.

Não falamos aqui do talento de Chico Anysio como escritor, dublador e
até pintor respeitado, mas da sua extraordinária capacidade de usar a
graça, a inteligência e o senso crítico para encarnar tipos atemporais
que retratam as mais variadas facetas da alma brasileira, boa parte dela
figurinha carimbada da grande mídia – a boa e a ruim, a honesta e a
corrupta, a culta e a ignorante, a humilde e a prepotente.

Personagens, desde agora, imortais. Como Alberto Roberto, o ator
cheio de estrelismo e vazio de talento. Canavieira e Justo Veríssimo, os
políticos ricos, corruptos e populistas. Coalhada, o perna-de-pau
ignorante que vivia se defendendo das críticas dos torcedores de
futebol. Primo Rico, o homem cheio de soberba que nunca tinha tempo de
ajudar seu parente pobre – nem ninguém. Tim Tones, o pastor-picareta que
enriqueceu às custas da fé alheia.

E, claro, o Professor Raimundo, o maior e mais copiado de todos os
seus personagens, símbolo dos corajosos e mal pagos professores que dão
duro nas salas de aula brasileiras, muitas vezes diante de uma legião de
idiotas. Chico Anysio certamente tinha seus defeitos, mas eles foram
incomparavelmente menores que suas virtudes.

Sua obra se destaca – e, agora, se eterniza – por mostrar ao Brasil
boa parte do que verdadeiramente somos, sem retoques. Destaca-se, porém,
além de tudo, por conta da mediocridade que impera no humor da tevê
brasileira, pelo menos a aberta. Não que não tenhamos humoristas
talentosos na tevê, nos teatros ou mesmo nas ruas e praças das nossas
cidades. Ocorre que profissionais com este perfil são minoria no rol de
humoristas que pulula pelos canais de televisão nativos.

É que, baseada na falsa ideia de que o povo gosta apenas de piadas
politicamente incorretas, de cenas de pastelão e de sexo, a tevê
brasileira prefere colocar em primeiro plano uma trupe de humoristas
grosseiros, arrogantes, bobos e – suprema contradição – sem nenhuma
graça, negando espaço a gente dotada de verdadeiro talento.  Humoristas
escoltados por uma safra de roteiristas-criadores de arquétipos e
esquetes pobres e sem sentido. Profissionais do riso que, tristemente,
não sabem fazer rir. Mas que, pior, ganham rios de dinheiro com isso,
mostrando o grau de inteligência raso de muitos brasileiros, bem como
dos que patrocinam este gênero de humor.

Chico Anysio vai fazer muita falta. Se é pieguice e anacronismo
sentir saudades de quem nos fez rir durante praticamente toda nossa
vida, pago o preço de tecer loas ao passado. Melhor ser piegas
acreditando que a inteligência deve predominar sobre a burrice do que me
render ao péssimo gosto do humor que predomina na tevê brasileira
. “E
que pode piorar…”, como diria Urubulino, outro personagem do velho
mestre.

*Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor
em Comunicação e presidente da ONG Pense Bicho. Pós-graduado em
Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e
colunista na imprensa do Paraná.


Curtiu? Compartilhe com os amigos!

Posts Relacionados

Leave a Comment

Notícias sobre a atuação parlamentar do Deputado Estadual Carlos Bordalo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Pará.

Email: dep.bordalo@alepa.gov.pa
Contato comunicação: bordalo13@gmail.com
Whatsapp: (91) 99319 8959

Gabinete: Assembleia Legislativa do Estado do Pará – Rua do Aveiro,130 – Praça Dom Pedro II, Cidade Velha – 66020-070 3° andar
Fone: 55 91 3182 8419 (ramal: 4368)

Copyright © 2019 Deputado Bordalo. Todos os Direitos Reservados.