Carta ao Iphan: considerações sobre intervir no Ver-o-Peso, em Belém do Pará

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Prezada Presidente
do IPHAN
Sra Jurema Machado
Senhora, ouso abordá-la sobre o tema
que se avizinha de possível nova intervenção na Feira do Ver-O-Peso em Belém do
Pará.
Para contribuir ao debate,
disponibilizo aqui, no link acima, o acesso as pranchas originais do concurso
nacional de arquitetura, realizado em duas fases, com debates públicos,
promovido pelo IAB, Instituto de Arquitetos do Brasil, em 1999, e regido por orçamento
participativo, onde os feirantes eram clientes ativos na busca por um design
coerente com suas tradições e práticas mas também atender a condições atuais e
reverter o quadro de
afastamento da população local,
especialmente de classe média, da feira.
Foram muitos anos de trabalho, sou um
dos autores da proposta vencedora, conjuntamente com Flavio Ferreira, Pedro
Rivera, Rafael Balbi e Rodrigo Azevedo, entre outros profissionais em grande
equipe multidisciplinar, em projeto que foi uma das experiências urbanas mais
avançadas na virada do milênio, num contexto amazônico, gerida por uma
administração municipal de caráter popular e amparada em metodologias
participativas, tendo sido a orientação por concurso nacional, uma prerrogativa
expressa da comunidade local da feira.
O texto do concurso é muito bonito e
defende uma solução sofisticada amparada na complexa e bem articulada relação
entre elementos populares e eruditos, vernaculares e tecnológicos, onde
coexistem edifícios em ferro vindos de outra parte do mundo, da Escócia, com
produtos e artefatos de design vindos do outro lado do rio, das “ilhas”.
A proposta traz portanto oferta de
solução modular, capaz de lidar com a natureza atuante e presente – as chuvas
frequentes e a umidade intensa – e a intensidade de fluxos e trabalhadores –
inúmeros produtos, peixes, açaí, maniva, farinhas, camarão seco, carnes, etc –
em articulação com edifícios singulares, o Mercado de Peixe, o de Carne, e o
Solar da Beira, tendo como plataforma urbana a proximidade imediata com a
cidade histórica, o Centro, a Praça do Relógio, o forte, a Sé.
Tal modulação firma a tenso-estrutura,
que coleta água, libera ar, deixa passar luz, e comporta-se como véu mole, em
contraste com elementos duros, e desenvolve um teto virtual, nebuloso,
ondulado, que abriga e acolhe a intensa vida da feira. Esta tecnologia permite
manutenção simples, e a simples substituição do material, ocorrendo a cerca de
cada vinte anos, permite a longevidade e sustentabilidade da solução
construtiva, assim como são pretensamente eternos os barcos mas substituem-se
as velas.
Ver-O-Peso é uma magnífica conjugação
da inteligência portuguesa e brasileira, fundando bases profundas para nossa
modernidade.
“Quem
no Pará parou, tomou açaí, ficou.” Dizem os locais tamanha é a força da terra,
seu genius locci, seu terroir. Sou hoje, graças a Deus (como lá se diz também),
casado com uma filha de paraenses e o açaí “das ilhas”, a maniçoba, ainda
frequentam minha vida.
Rogo leitura ao material que
disponibilizo aqui.
Se irão intervir no Ver-O-Peso, que o
façam novamente por concurso aberto, nacional, tal qual um Prometeu feliz, a
reinventar-se continuamente mas sem dor, somente o prazer do vislumbre da água
amarela da baía de Guajabara de onde sai o sol e de onde veio a Virgem de
Nazareth, e de onde brota o Círio continuamente e vigorosamente.
Precisar demolir e reconstruir talvez
não seja necessário mas esta é uma manifestação que não me convém, tão pouco
defender exclusivamente como minha uma solução que foi construída democraticamente.
Defendo aqui o caminho, o método, o modo. A inteligência de saber fazer. Saber
intervir.
Uma corda de esperança pela qualidade
na intervenção no ambiente construído e imaterial do Ver-O-Peso, bem que a
humanidade precisa conhecer para reconfigurar suas lógicas de vida econômica,
cultural e social com a natureza, especialmente diante das mudanças climáticas
que ameaça nossa espécie no planeta.
As lições de Belém, e do Ver-O-Peso,
são singelas mas tem raízes profundas nas relações que firmamos no passado e
que poderemos firmar no futuro com a natureza.
E reside aí, nesse lugar aparentemente
caótico, intenso, uma nova ordem harmônica para o Antropoceno.
Com meu mais profundo apreço pela sua
condução sempre exemplar e serena, que a mim influencia tanto, também
atualmente na condição de gestor de patrimônio cultural, despeço-me com muito
respeito e admiração.
Atenciosamente
Washington Fajardo
arquiteto e urbanista
PS.: veja o que ameaça a integridade
do Ver-O-Peso aqui.


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